Provavelmente você já passou pela situação de alguém bem próximo a você passar mal pra c*r*l** depois de beber umas e outras numa festa, num bar ou numa temida festa de família.
Este ser abençoado teve que ser cuidado por outro(s) e estragou sua própria atuação com demonstrações nojentas no banheiro (quando muito educado; realizar a proeza em si mesmo é um pouco mais indigno).
Para chegar neste estágio, ele passou por uma hierarquia de situações das quais é muito capaz que não se lembre, desde o olhar embaralhado às pessoas conhecidas, até a dancinha tonta e as piadas des-situadas em público.
Agora, por quê? Por que raios o álcool tem este efeito no nosso cérebro?
Primeiro temos que pensar na necessidade do ser humano em encher a cara ou dopar-se com alguma substância extra-corpórea, que vem de milênios e era muito bem vista, até chegar a ANVISA, FDA, pais preocupados, agências especializadas e gente dando vexame pra justificar tudo isto.
Dados do Ministério da Saúde de 1999 (realiza, 11 anos atrás…) dão conta que drogas sempre foram usadas em ocasiões sociais, religiosas, terapêuticas e, para quem não sabe do passado negro dos nossos ídolos idôneos (sem contar Elis Regina, Kurt Cobain, Michael Jackson, Marilyn Monroe, et al, que pegaram a proibição), Freud cheirava sua cocaína sem o menor pudor, meu pai e friends secavam o vidro de lança nos carnavais, há cafés medicinais em San Francisco para pessoas em tratamento de doenças crônicas (é preciso ter carteirinha de membro para usufruir dos chás, cigarros e aperitivos feitos de maconha), e toda e qualquer pessoa que está lendo isto tem um amiguinho, vizinho, ou seu próprio ego, que já experimentou alguma coisa na vida, nem que for o cheiro de combustível no posto de gasolina.
Na mesma fonte, www.saude.gov.br, pode-se obter o dado que muita gente anda exagerando demás no consumo, e os casos tem parado nos hospitais e nas páginas policiais, quando não na TV com excesso de ênfase.
Tomemos como exemplos o caso do rapaz claramente esquizofrênico, usuário de maconha e chá do santo daime (quem deu, Santo Deus??) que matou o cartunista aqui em SP, o outro belezinha que resolveu andar na contramão na Raposo Tavares e fez duas vítimas; o outro, pior ainda, menor de idade, sem carteira, bebaço, que fez firulas num parque e levou um anjinho de 1 ano pro céu antes da hora.
Exemplos, exemplos, explicações à parte. Vamos a elas, com foco no álcool, que se eu falasse de toda substância entorpecente isto seria minha monografia, não um post.
Peguemos meu vasto material do curso de Neuropsico e contribuições ilustrativas da Mundo Estranho, que são explicações mais acessíveis, não desenhinhos.
Primeiro de tudo, o álcool já começa a ser metabolizado na boca do indivíduo, estilo comida.
Aliás, há quem troque comida pelo álcool, fica magro e bêbado, e o nome disto é drunkorexia.
Outro assunto, muito interessante, pra outro dia.
Voltemos ao metabolismo alcóolico, a maior parte do etanol (molécula mais comum do álcool que consumimos, tirando os viciados em perfume, álcool de limpeza e outras bizarrices) que entra no nosso organismo é absorvida no intestino delgado, que é a região mais irrigada por vasos sanguíneos do nosso trato digestivo.
Mas antes ele já passou pelo estômago, onde também deixou vestígios, como a irritação da mucosa, que provoca a gloriosa sensação de enjôo de quem está prestes a ter alucinações no banheiro.
A molécula do álcool é espalhada pelo nosso corpo através da água, e onde houver maior abundância desta substância, mais ele vai levando seu bloco pra passear.
Aí é que mora o perigo, porque nossos órgãos vitais são cheios de água, como fígado, rins, cé-éérebro. Chegamos ao ponto onde o ser humano ajoelha e reza, que é a desestruturação do pai de todos, mas não sem antes abusar do fígado, que parte o álcool em moléculas menores para conseguir a metabolização, só que, passando de uma certa quantidade (aí depende do tamanho do ser humano, o quão rápido ele vira o copo e o quanto ele comeu antes de encher a cara), há intoxicação pelo excesso de etanol no sangue e o trabalho hepático não rende.
Voltemos ao cérebro, quando o etanol chega ao poderoso chefão, ele induz a produção de serotonina que, como muitos sabem, é o neurotransmissor da felicidade, da desinibição, do estado de leve alegria ou total euforia que toma conta do corpo da criatura nos primeiros goles.
Ao passar do tempo, e com o aumento do nível da substância no sangue, o álcool perversamente faz com que outros neurotransmissores participem da festinha, o glutamato, que além de ser um NT, também é precursor de outro, o senhor GABA, responsável por dar sossega-leão nas células nervosas.
Trabalhando bem menos, e vindo de uma super-excitação, o cérebro começa a entrar em colapso, e tenta voltar ao estado anterior de bem-estar. Alguns conseguem manter-se neste primeiro estágio, mas a maioria descamba pro samba do crioulo doido, com perda da coordenação motora e o tão importante autocontrole.
Ah, há também o excesso de liberação de água durante a bebedeira (vulgo 300 idas ao banheiro pra fazer xixi, uma vez iniciadas, elas não param nunca), que nada mais é do que o sequestro das moléculas de água pelas moléculas de álcool, que não são bobas nem nadas e não gostam de fazer festa sozinhas.
Eis a explicação do porque tanta gente quer esquecer uma noite de pileque, e porque tantas querem mais e mais. Afinal de contas, a ressaca do dia seguinte (provocada pela desidratação, que uma vez sequestrada, a água nem pensa em voltar, sofre de síndrome de Estocolmo*) é a prova que algo da noite anterior foi devidamente jogado no limbo, já que as funções cognitivas são altamente atingidas com um porre.
E quem não quer entulhar coisas no limbo de vez em quando, ou apenas desinibir-se um pouco, que atire o primeiro copo de cachaça pro santo.
* Não achei nada melhor, então vai a Wikipedia mesmo http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Estocolmo